Gurgel Tocantins: O Utilitário 100% Brasileiro que Desafiou Gigantes
Se existe um veículo que simboliza o orgulho, a criatividade e a capacidade de engenharia da indústria automobilística nacional, esse veículo é o Gurgel Tocantins. Evolução direta do lendário X12, o Tocantins foi o ápice dos jipes leves desenvolvidos pela Gurgel Motores.
Conheça em detalhes a história desse utilitário, desde a visão do seu criador até os segredos de sua mecânica, vendas e mercado internacional.
O Criador: A Visão de João Gurgel
A história de qualquer veículo da marca começa com o engenheiro mecânico e eletricista João Augusto Conrado do Amaral Gurgel (1926–2009).
Durante sua graduação na Escola Politécnica de São Paulo, no final dos anos 1940, Gurgel expressou o desejo de apresentar como trabalho de conclusão o projeto de um pequeno carro popular brasileiro (chamado de Tião). Seu professor orientador desdenhou da ideia com a frase histórica: "Carro não se fabrica, Gurgel, se compra!".
Inconformado, Gurgel estagiou nos Estados Unidos (General Motors e Buick) e retornou ao Brasil decidido a provar o contrário.
Origem e Período de Fabricação (1988 a 1991/1992)
A linha de utilitários leves da Gurgel seguiu uma evolução contínua:
Gurgel Ipanema
(1969–1971): O primeiro bugue da marca. Gurgel Xavante (XT/X10) (1972–1975): Introdução da proposta mais rústica e militarizada.
Gurgel X12
(1976–1988): O consagrado jipe de linhas retas e faróis redondos. Gurgel Tocantins
(1988–1991/1992): A reestilização e modernização do X12.
Em 1988, acompanhando a criação do novo estado do Tocantins na Constituição brasileira, a Gurgel reestilizou o X12 e rebatizou o modelo como Gurgel Tocantins.
O que Mudou do X12 para o Tocantins?
O Gurgel Tocantins trouxe um visual mais fluido e urbano, sem perder a capacidade off-road:
Dianteira Redenhada: Os faróis redondos deram lugar a faróis retangulares. A grade frontal foi atualizada com três frisos horizontais e o nome "GURGEL" destacado ao centro.
Maior Espaço Interno: A capota rígida (ou de lona) foi estendida na traseira, aumentando a área útil para passageiros do banco traseiro e bagagens.
Mais Visibilidade:
Colunas mais finas e vidros laterais e traseiros maiores reduziram os pontos cegos. Interior e Painel:
Instrumentos com novos marcadores circulares e melhorias na ergonomia interna.
Soluções Geniais e Tecnologias Patenteadas
O Tocantins não usava tração 4x4 pesada, mas conseguia superar atoleiros graças a sacadas de engenharia patenteadas pela própria Gurgel:
1. O Chassi Plasteel®
Estrutura tubular de aço revestida totalmente por resina de poliéster reforçada com fibra de vidro (PRFV). Formava um monobloco leve, extremamente resistente à torção e 100% imune à ferrugem.
2. O Sistema Selectraction®
Ao lado do freio de mão tradicional, havia duas alavancas extras. Se uma das rodas traseiras ficasse girando em falso na lama ou areia, o motorista puxava a alavanca correspondente para travar individualmente aquela roda.
A força do diferencial era transferida instantaneamente para a outra roda que tinha aderência. Era um "bloqueio de diferencial" mecânico simples, barato e muito eficiente.
Ficha Técnica Resumida
| Item | Especificação |
| Motor | Volkswagen 1.6 Boxer (4 cilindros opostos, arrefecido a ar) |
| Combustível | Gasolina ou Álcool |
| Potência | ~56 cv a 60 cv SAE |
| Câmbio | Manual de 4 marchas com tração traseira |
| Peso em Ordem de Marcha | ~800 kg a 850 kg |
| Carroceria/Chassi | Monobloco em fibra de vidro e chassi Plasteel® |
| Comprimento / Entre-eixos | 3,31 m / 2,04 m |
Vendas e Uso Institucional
A família X12 / Tocantins foi o maior sucesso comercial da história da Gurgel.
Uso Severo por Empresas: Devido à durabilidade da fibra de vidro e à mecânica simples da Volkswagen, frotas inteiras do Tocantins foram compradas pela Petrobras, Telebrás, Furnas, RFFSA (Ferrovias) e companhias de energia elétrica.
Forças Armadas e Polícia: As versões militares serviram ao Exército Brasileiro e polícias ambientais/florestais.
Uso Litorâneo: Moradores de regiões praianas adotaram o Tocantins como carro do dia a dia, pois os carros normais de chapa de aço apodreciam rapidamente com a maresia, enquanto a fibra de vidro do Gurgel permanecia intacta.
Exportações: A Gurgel Pelo Mundo
Ao contrário do que muitos pensam, a Gurgel foi uma exportadora ativa. Nos anos de pico, até 25% de toda a produção da fábrica em Rio Claro (SP) era enviada para o exterior.
Destinos: O Tocantins e seus antecessores foram exportados para mais de 40 países, cobrindo a América Latina, Caribe, África e países europeus como Portugal, Espanha e Grécia.
O Caso do Volkswagen 181 no Caribe: As vendas do jipe brasileiro no Caribe foram tão expressivas que praticamente "esmagaram" as vendas do VW 181 (Safari/Thing) fabricado pela Volkswagen no México, levando a montadora alemã a descontinuar seu modelo na região.
Curiosidades do Gurgel Tocantins
Nomenclatura Patriótica: João Gurgel sempre batizou seus veículos com nomes da geografia, cultura ou tribos indígenas brasileiras (Ipanema, Xavante, Itaipu, Carajás, Tocantins).
Ganchos de Reboque e Acessórios: O Tocantins podia vir equipado de fábrica com camburão extra de combustível (galão de 20 litros), pá fixada na lateral para resgate na terra e guincho manual dianteiro.
Manutenção em Qualquer Esquina: Como usava o consagrado motor boxer refrigerado a ar do Fusca/Kombi, qualquer mecânico no interior do Brasil conseguia consertar o Tocantins com peças baratas e abundantes.
Valorização no Antigomobilismo: Hoje, o Gurgel Tocantins virou item de coleção. Exemplares bem conservados ou restaurados nos padrões originais chegam a alcançar valores expressivos em encontros de carros antigos.






