VW 1600 "Zé do Caixão": O Sedã da Volkswagen que Virou Lenda Urbana
Se você é apaixonado por carros antigos ou costuma frequentar encontros de clássicos, certamente já ouviu falar de um dos modelos mais caricatos, polêmicos e, hoje, altamente cobiçados da indústria automobilística brasileira: o Volkswagen 1600. Mas, para a grande maioria, ele é conhecido por um nome bem mais sombrio: o "Zé do Caixão".
Lançado no final de 1968 (como modelo 1969) e produzido por um curtíssimo período até 1971, esse sedã de três volumes e quatro portas nasceu com a missão de modernizar a frota da Volkswagen do Brasil. No entanto, acabou entrando para a história não pelo seu desempenho comercial, mas por sua personalidade única e pelos apelidos impagáveis que recebeu do público.
Abaixo, contamos a história completa desse ícone do asfalto, suas curiosidades e por que ele se tornou uma lenda tão valiosa nos dias de hoje.
O Nascimento do "Fusca de Quatro Portas"
Na segunda metade da década de 1960, a Volkswagen dominava o mercado brasileiro com o Fusca e a Kombi. Contudo, a marca precisava de um veículo de passeio de três volumes (sedã) que oferecesse mais espaço, conforto e a praticidade das quatro portas para competir com os novos rivais que batiam à porta, como o Ford Corcel e o Chevrolet Opala.
A solução foi desenvolver um sedã baseado na plataforma do Fusca, mas com uma carroceria exclusiva projetada pela filial brasileira. Equipado com o motor boxer de 1.584 cm³ (1600cc) refrigerado a ar montado na traseira, o modelo trazia suspensão dianteira por barras de torção e o robusto conjunto mecânico que o brasileiro já conhecia e confiava.
De Onde Surgiu o Apelido "Zé do Caixão"?
A Volkswagen investiu pesado em publicidade para vender o VW 1600 como um carro "requintado" e ideal para a família média. Porém, a criatividade do brasileiro falou mais alto.
O design do carro era extremamente retilíneo, com linhas muito quadradas e faróis retangulares na dianteira. O visual exótico, somado a um detalhe crucial — as quatro maçanetas externas salientes nas portas —, logo despertou a imaginação popular. O público achou que o formato quadradão do carro lembrava um caixão de defunto, e as maçanetas cromadas pareciam as alças para carregar o ataúde.
Para completar a piada, o famoso cineasta de terror brasileiro José Mojica Marins, o criador do personagem Zé do Caixão, estava no auge de sua popularidade na época. Não demorou muito para que o carro fosse batizado com o nome do sinistro personagem.
Curiosidade: No Sul do país, o modelo também ganhou o apelido de "Saboneteira", devido ao seu formato reto com cantos arredondados, mas a força do "Zé do Caixão" acabou engolindo qualquer outra alcunha.
Por Que Ele Durou Tão Pouco no Mercado?
Apesar de ser um carro confortável para os padrões da época, o VW 1600 enfrentou sérios problemas de aceitação:
Rejeição ao Design: O estilo excessivamente quadrado não agradou ao público consumidor privado, que preferia as linhas mais fluidas e modernas do Corcel e do Opala.
Preconceito com as Quatro Portas: Naquela época, o mercado brasileiro tinha uma forte rejeição a veículos de quatro portas (acreditava-se que eram menos seguros para crianças ou menos elegantes).
Fama de "Carro de Taxista": Devido ao bom espaço interno e facilidade de manutenção mecânica, ele foi adotado em massa pelas frotas de táxi. Isso acabou afastando o comprador comum de classe média.
Em 1970, a VW tentou uma sobrevida para o modelo, reestilizando a dianteira com faróis duplos redondos no lugar dos retangulares. No entanto, em dezembro de 1970, um grande incêndio na fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo comprometeu o ferramental de produção do modelo. A marca, que já planejava focar em projetos mais promissores como a perua Variant e o fastback TL, decidiu descontinuar o sedã definitivamente no início de 1971.
Ao todo, foram produzidas pouco menos de 25 mil unidades do VW 1600 quatro portas.
Ficha Técnica Resumida (Modelo 1969)
Motor: Traseiro, Boxer, 4 cilindros opostos, refrigerado a ar, 1.584 cm³ (1.6L)
Potência: 60 cv (DIN) a 4.000 rpm
Torque: 11,3 kgfm a 2.800 rpm
Câmbio: Manual de 4 marchas
Velocidade Máxima: Cerca de 130 km/h
Peso: 940 kg
Capacidade do Porta-malas: Aproximação de 320 litros (na dianteira)
O Status de Relíquia nos Dias de Hoje
Se nos anos 70 o Zé do Caixão foi considerado um fracasso comercial, o tempo tratou de transformar o jogo. Por ter tido uma produção baixa e um alto índice de sucateamento (já que muitos rodaram até o limite como táxis), restaram pouquíssimos exemplares em bom estado de conservação.
Hoje, o VW 1600 é uma verdadeira joia rara entre os colecionadores de Aircooled (veículos refrigerados a ar). Um exemplar com alto índice de originalidade e pintura bem cuidada pode alcançar valores de mercado surpreendentes, sendo disputado a dedo em leilões e encontros de antigomobilismo.
O "patinho feio" da Volkswagen finalmente deu a volta por cima, provando que o carisma e a história de um carro superam qualquer preconceito de época.






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