A Origem do Volkswagen Santana
A história do Santana começa na Alemanha, em 1980, como a segunda geração do Volkswagen Passat (plataforma B2). Enquanto a versão hatchback manteve o nome Passat, a variante sedã de três volumes (com porta-malas saliente) foi batizada de Santana — uma homenagem aos ventos quentes e fortes da Cordilheira de Santa Ana, na Califórnia, seguindo a tradição da VW de nomear seus carros com nomes de ventos e correntes marítimas (como Golf, Scirocco e Jetta).
No início dos anos 1980, a Volkswagen do Brasil dominava as vendas de carros populares, mas precisava de um modelo de prestígio para competir com o Chevrolet Monza, o Ford Del Rey e o Alfa Romeo 2300. Após um intenso trabalho de nacionalização e adaptação à suspensão e às estradas brasileiras, o Santana foi lançado oficialmente em junho de 1984.
Abaixo, você confere a evolução cronológica detalhada dos principais anos da trajetória desse clássico no Brasil, passando pelas transformações tecnológicas, motorizações, modernizações e curiosidades de cada época.
Evolução Ano a Ano: Motores, Tecnologias e Curiosidades
1984: O Nascimento de um Clássico
Tecnologia e Motorização: Estreia no mercado com o motor 1.8 litro (AP-800), gerando 92 cv na versão a álcool e 85 cv a gasolina. Contava com câmbio manual de 4 ou 5 marchas e a opção de transmissão automática de 3 velocidades.
Modernidade e Acabamento: Foi lançado em três versões de acabamento: CS (Comfort Silver), CG (Comfort Gold) e a topo de linha CD (Comfort Diamond).
Curiosidade: Foi o primeiro carro brasileiro a oferecer direção hidráulica progressiva e ar-condicionado integrado ao desenho do painel de forma nativa e altamente eficiente, elevando o padrão de ergonomia na época.
1986: A Era do AP-2000
Tecnologia e Motorização: O ano mais marcante para a performance do sedã. A Volkswagen lança o lendário motor AP-2000 (2.0 litros), entregando impressionantes 112 cv na versão a álcool.
Modernidade e Atualizações: Mudança nas nomenclaturas das versões, que passam a se chamar CL (Comfort Luxus), GL (Gran Luxus) e GLS (Gran Luxus Super).
Curiosidade: Com a chegada do motor 2.0 e câmbio com escalonamento longo, o Santana GLS 1986 tornou-se o carro de passageiros mais rápido do Brasil, ultrapassando a barreira dos 170 km/h de velocidade máxima.
1987: Refinamento Acústico e Visual
Tecnologia e Motorização: A mecânica 1.8 e 2.0 permanece, mas recebe otimizações nos carburadores (Brosol/Solex) para melhorar a partida a frio e reduzir o consumo de combustível.
Modernidade: A linha ganha para-choques envolventes (mais largos e com frisos cromados na versão GLS), além de novos tecidos de revestimento interno em veludo navalhado.
Curiosidade: A engenharia da VW aplicou um novo pacote de isolamento acústico no cofre do motor e nas portas, respondendo a críticas de que o carro era ruidoso em altas rotações comparado ao Chevrolet Monza.
1988: O Retrovisor Sem Quebra-Vento
Tecnologia e Atualizações: Introdução da versão GLS 2000 com painel de instrumentos redesenhado, iluminação reformulada e novos comandos de climatização.
Modernidade: Na versão GLS, os vidros dianteiros passam a ser inteiriços, eliminando o tradicional quebra-vento e posicionando os espelhos retrovisores no canto inferior da porta, com controle elétrico interno.
Curiosidade: Foi o ano em que o Santana começou a ser exportado em larga escala para países da América Latina e até mesmo para a China em regime CKD (desmontado), iniciando uma trajetória global.
1989: O Marco da Injeção Eletrônica (Série Executivo)
Tecnologia e Motorização: No final do ano (já como linha 1990), surge o icônico Santana Executivo (EX). Foi o primeiro carro nacional produzido em série equipado com injeção eletrônica de combustível (Bosch LE-Jetronic), elevando a potência para 125 cv.
Modernidade: Além do EX, a VW lançou a série especial Evidence, com visual esportivo, spoiler dianteiro e detalhes pintados na cor da carroceria.
Curiosidade: A injeção eletrônica analógica do Santana EX acabou com os problemas de afogamento dos carburadores e entregava respostas imediatas ao acelerador, tornando a versão um sonho de consumo imediato da elite brasileira.
1990: O Esporte Fino e as Rodas BBS
Tecnologia e Motorização: O motor 2.0i com injeção eletrônica consolida-se na versão Executivo (EX), enquanto as versões GL e GLS mantêm o carburador eletrônico ou tradicional, dependendo do pacote.
Modernidade: A versão EX adota lanternas traseiras fumê, aerofólio na tampa do porta-malas com brake-light integrado (luz de freio elevada), bancos esportivos Recaro em couro e as lendárias rodas BBS aro 14 douradas ou prateadas.
Curiosidade: O Santana Executivo custava uma verdadeira fortuna na época, sendo comparado em preço e status a muitos veículos importados que começavam a chegar ao país após a reabertura das importações.
1991: A Reestilização da "Nova Geração"
Tecnologia e Motorização: Chegada do carburador eletrônico de forma mais ampla nas versões 1.8 e 2.0, além da injeção multiponto e monoponto se espalhando pela gama.
Modernidade: O Santana perde o desenho quadradão da década de 80 e ganha linhas aerodinâmicas, fluidas e modernas, no que ficou conhecido como Santana 2000 ou "Nova Geração". O porta-malas cresceu e o tanque de combustível passou a ser de plástico (mais seguro e leve).
Curiosidade: No lançamento desta geração, o Santana era vendido inicialmente apenas na carroceria de 4 portas, uma mudança arriscada em um mercado brasileiro que ainda mantinha um forte preconceito cultural a favor dos carros de 2 portas.
1992: A Volta das 2 Portas e Foco em Segurança
Tecnologia e Motorização: Por exigência do Proconve, toda a linha passa a contar com catalisador no sistema de escapamento para redução de emissões de poluentes. O motor AP 2.0 ganha injeção multiponto (GLSi).
Modernidade: Para atender ao público tradicional e esportivo, a Volkswagen relança a carroceria de 2 portas com o novo design aerodinâmico.
Curiosidade: O Santana GLS 1992 foi um dos primeiros carros nacionais a oferecer freios ABS (sistema antitravamento) como equipamento opcional, colocando o modelo no topo da segurança ativa no Brasil.
1993: Era Autolatina e Injeção FIC
Tecnologia e Motorização: Fruto da Autolatina (parceria entre VW e Ford), o modelo passa a utilizar sistemas de gestão eletrônica integrados e consolida a injeção digital de combustível (FIC/EEC-IV e Bosch) em toda a linha 2.0.
Modernidade: Introdução do sistema de ar-condicionado com gás ecológico R134a, que não agredia a camada de ozônio, e opção de toca-fitas e CD Player de alta fidelidade nas versões topo de linha.
Curiosidade: Compartilhando mecânica e plataforma com os modelos da Ford (Versailles e Royale), este ano representa o ápice da sinergia entre as duas marcas no Brasil, com peças que traziam os logos da VW e da Ford estampados juntos no cofre do motor.
1994: Refinamento Ergonomic e Frotas Executivas
Tecnologia e Motorização: O motor AP 1.8 e o AP 2.0 recebem melhorias no coletor de admissão e novos tuchos hidráulicos, eliminando a necessidade de regulagem periódica de válvulas e reduzindo drasticamente o ruído do motor.
Modernidade: Atualizações nos tecidos internos, novo desenho de volantes e melhorias no painel de instrumentos com grafismos mais nítidos.
Curiosidade: Com a chegada do Chevrolet Vectra e do Fiat Tempra fortalecidos, o Santana começou a transicionar sua imagem: deixava de ser o carro da "juventude rica" para se consolidar como o sedã predileto de executivos, autoridades governamentais e frotas de alto padrão.
1995: O Desafio Contra os Importados e Foco no Acabamento
Tecnologia e Motorização: O sedã consolida o uso das injeções eletrônicas (gerenciadas pelo sistema EEC-IV da era Autolatina) em toda a gama, com o motor AP 1.8i (com injeção monoponto na versão CLi e GLi) e o potente AP 2.0i (com injeção multiponto na versão topo de linha GLSi). O câmbio mantinha os engates curtos, precisos e elogiados pela mecânica nacional.
Modernidade e Equipamentos: O acabamento interno passou por um refinamento importante para enfrentar a concorrência moderna, ganhando novos revestimentos em veludo nas portas e nos bancos anatômicos. A versão GLSi estreava novos desenhos de rodas de liga leve aro 14 e oferecia como diferencial um sistema de som de alta qualidade, com toca-fitas e opção de CD Player integrado, além do teto solar elétrico que era o grande desejo de consumo da época.
Curiosidade: O ano de 1995 foi marcado pela explosão nas vendas de carros importados no Brasil, impulsionada pela estabilidade do Plano Real. Para disputar clientes com sedãs japoneses, europeus e norte-americanos que chegavam cheios de tecnologia, o Santana utilizou como sua maior arma a inquestionável robustez mecânica: enquanto os importados sofriam com a falta de peças e mecânicos especializados, o sedã da VW oferecia o luxo dos freios ABS e bancos em couro com uma manutenção simples, barata e confiável em qualquer canto do país.
1997: Estrutura Reforçada e Novo Cabeçote
Tecnologia e Motorização: A grande novidade técnica da época (introduzida na virada de 96 para 97) foi a adoção dos motores com injeção Mi (Multi-point Injection) digital e sequencial para toda a linha, proporcionando partidas instantâneas e funcionamento suave.
Modernidade: A versão GLS ganha novas rodas de liga leve, faróis de neblina integrados ao para-choque e acabamento interno de padrão superior.
Curiosidade: A carroceria recebeu importantes reforços estruturais nas colunas e no assoalho para atender a normas de segurança contra choques laterais mais rigorosas, tornando o carro ainda mais rígido e resistente à torção.
1998: O Último Ano Com Esse Facelift
Tecnologia e Motorização: Simplificação da gama em duas motorizações principais: 1.8 Mi e 2.0 Mi, ambas mundialmente famosas pela durabilidade extrema e baixo custo de manutenção.
Curiosidade: O volante adotado nesta linha 1998 era o mesmo utilizado em modelos europeus da marca, dando um fôlego renovado ao habitáculo de um projeto que já completava mais de uma década no mercado nacional.
1999: O Imbatível Custo-Benefício
Tecnologia e Motorização: Ajustes no mapeamento da injeção eletrônica Mi para melhorar o consumo urbano, focando no público que rodava altas quilometragens diárias.
Modernidade: As versões passam a ser vendidas com pacotes de módulos de equipamentos (Comfortline e Sportline, ou apenas marcações por motorização 1.8 e 2.0), facilitando a escolha na concessionária.
Curiosidade: A partir de 1999, o Santana consolidou o título de "O Rei dos Táxis". Sua robustez mecânica, espaço interno generoso para passageiros no banco traseiro e porta-malas gigantesco fizeram dele o carro favorito de 9 entre 10 taxistas nas grandes capitais brasileiras.
2000: A Virada do Milênio
Tecnologia e Motorização: O motor AP (1.8 e 2.0 Mi) provava ser uma lenda da engenharia mecânica: enquanto concorrentes apresentavam motores de 16 válvulas complexos e sensíveis à gasolina de baixa qualidade, o AP 8 válvulas do Santana aguentava centenas de milhares de quilômetros sem abrir o motor.
Modernidade: A Volkswagen começa a simplificar alguns acabamentos estéticos para manter o preço do carro competitivo diante dos carros médios emergentes, mantendo itens de conforto como ar-condicionado e direção hidráulica como os grandes atrativos de venda.
Curiosidade: Mesmo sendo um projeto da década de 80 reestilizado, no ano 2000 o Santana ainda vendia mais que muitos sedãs recém-lançados de marcas concorrentes, sustentado pela fidelidade dos consumidores de frotas e pela confiabilidade mecânica.
2002: A Despedida da Perua Quantum
Tecnologia e Motorização: Pequenas melhorias em sensores de injeção e sistema de exaustão para atender aos limites de emissões ambientais da fase Proconve L4.
Modernidade: Novas padronagens de tecidos para os bancos e simplificação da linha de opcionais.
Curiosidade: O ano de 2002 marcou o fim da produção da perua Volkswagen Quantum, que se despediu do mercado após 17 anos de bons serviços prestados às famílias brasileiras, deixando o sedã Santana sozinho na linha de montagem da fábrica de São Bernardo do Campo (SP).
2003: Simplificação Estratégica e Força Operacional
Tecnologia e Motorização: Permanecem em cena os inquebráveis motores 1.8 Mi e 2.0 Mi de 8 válvulas, agora totalmente consolidados como referência de facilidade e baixo custo de manutenção. A mecânica seguia recebendo pequenos ajustes finos no gerenciamento da injeção para garantir o cumprimento das rigorosas metas de emissões de poluentes do Proconve.
Modernidade e Equipamentos: Sem a perua Quantum no catálogo, a Volkswagen concentrou todas as atenções no sedã. O modelo passou por um processo de racionalização: os faróis de neblina e alguns detalhes de acabamento mais refinados deixaram de vir de série na versão básica (agora vendida com o pacote Comfortline ou Sportline), mas itens essenciais como ar-condicionado, direção hidráulica e vidros elétricos continuavam sendo o grande chamariz nas concessionárias.
Curiosidade: Em 2003, o Santana já havia assumido uma identidade muito clara no mercado nacional. Sem focar em disputar o cliente que buscava design futurista, ele se tornou o rei das frotas de empresas, órgãos governamentais, polícias e, claro, dos taxistas, que valorizavam acima de tudo o excelente espaço para as pernas no banco traseiro e um porta-malas que parecia interminável.
2005: A Resistência do Guerreiro no Mercado Médio
Tecnologia e Motorização: O Santana entra no ano de 2005 provando que um projeto mecânico brilhante pode desafiar o tempo. Os motores AP 1.8 Mi e AP 2.0 Mi continuavam entregando o clássico torque em baixas rotações e aguentando regimes severos de uso diário — muitas vezes superando a marca dos 300 mil quilômetros rodados sem a necessidade de retífica na parte inferior do motor.
Modernidade e Atualizações: Para manter o carro atraente no custo-benefício contra sedãs compactos e médios mais modernos, a Volkswagen passa a oferecer o Santana em versão única de acabamento, diferenciada apenas pela escolha da motorização (1.8 ou 2.0) e por pacotes de opcionais fechados, simplificando a linha de montagem e barateando o preço final para o comprador.
Curiosidade: Enquanto o mercado automotivo brasileiro vivia a febre dos primeiros motores bicombustíveis (Flex), a Volkswagen tomou a decisão estratégica de não desenvolver uma versão Total Flex para o Santana, mantendo-o apenas a gasolina ou a álcool. Essa decisão já era um sinal de que a montadora começava a planejar a aposentadoria definitiva da lendária plataforma B2 no Brasil.
2006: O Fim de uma Era e o Adeus do Ícone
Tecnologia e Motorização: Em seu último ano de produção no Brasil, o Santana manteve a confiável receita da mecânica AP (1.8 Mi e 2.0 Mi), sem alterações mecânicas significativas, mantendo a excelência em ergonomia e o silêncio de rodagem que marcou a evolução da linha desde a década de 80.
Modernidade e Opcionais: Nas unidades derradeiras, o carro ainda podia ser equipado com ar-condicionado, direção hidráulica, travas e vidros elétricos, alarme e rodas de liga leve, mantendo a dignidade de um sedã que nasceu para ser o topo de linha da marca.
Curiosidade: A produção do Volkswagen Santana no Brasil foi encerrada oficialmente em junho de 2006, na fábrica de São Bernardo do Campo (SP), com uma discreta unidade na cor Prata Light deixando a linha de montagem. Apelidado carinhosamente pelos mecânicos de "o tanque de guerra da VW", o Santana despediu-se do mercado nacional com um expressivo número de mais de 540 mil unidades produzidas, deixando uma legião de admiradores, clubes de colecionadores e um legado indiscutível como um dos carros mais robustos e rentáveis da história do nosso automobilismo.
O Volkswagen Santana não foi apenas mais um carro na história do país; ele foi uma escola de engenharia de durabilidade. Desde seu início requintado para a alta sociedade até sua consagração como o mais incansável trabalhador das ruas brasileiras, o modelo ensinou que a união entre uma excelente aerodynamica, conforto de rodagem e a lenda do motor AP forma uma receita simplesmente imortal.



















































































































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