Manuais do Chevrolet Chevette: Histórias e Curiosidades.
1973: O Nascimento do "Tubarão"
O ano de 1973 marca o início de tudo. O Chevette foi apresentado ao público brasileiro com a missão de enfrentar o Fusca e o recém-lançado Brasília. O modelo de estreia ficou conhecido carinhosamente como "Tubarão" devido ao design da sua frente inclinada e faróis circulares embutidos. O impacto visual foi imediato: ele parecia um mini-muscle car americano, com linhas limpas e uma traseira curta.
Sob o capô, a GM introduziu o motor 1.4 litro com comando de válvulas no cabeçote acionado por correia dentada, uma inovação para a época em que muitos motores ainda usavam varetas (OHV). Esse motor entregava 68 cavalos (brutos), o que era mais que suficiente para os 800 kg do carro. Em 1973, o acabamento era espartano, mas com uma qualidade de montagem que impressionava. O câmbio de quatro marchas tinha engates curtos e precisos, algo que se tornaria a marca registrada do modelo. O Chevette de 73 estabeleceu o padrão de dirigibilidade que os brasileiros passariam a amar: um carro ágil, fácil de manobrar e com uma estabilidade superior graças à suspensão bem acertada.
1975: A Consolidação e a Série Especial GP
Em 1975, o Chevette já não era mais uma novidade, mas sim um sucesso estabelecido. Foi neste ano que a Chevrolet começou a explorar o potencial esportivo do carro com o lançamento da série GP (Grand Prix). O GP foi o carro oficial dos pilotos de Fórmula 1 durante o GP do Brasil daquele ano, e essa herança das pistas foi levada para as ruas com uma estética agressiva: capô preto fosco, faixas laterais e um painel de instrumentos mais completo.
Mecanicamente, o carro mantinha a robustez, mas o mercado começava a exigir mais mimos. O modelo de 1975 trouxe melhorias nos revestimentos internos e no isolamento acústico. O Chevette provava ser um carro extremamente resiliente às condições das estradas brasileiras. A tração traseira, muitas vezes criticada por quem preferia a tração dianteira dos rivais europeus, mostrava-se uma vantagem em subidas de terra e em termos de durabilidade dos componentes da suspensão dianteira. O ano de 75 foi o momento em que o Chevette deixou de ser o "carro novo da GM" para se tornar o "carro confiável do brasileiro".
1978: A Primeira Grande Mudança Visual
O ano de 1978 foi divisor de águas para o design do Chevette. Foi quando ele recebeu a frente inspirada no Pontiac Firebird, abandonando os faróis circulares em favor de faróis quadrados e uma grade bipartida. Essa mudança deu ao carro um aspecto mais maduro e alinhado com a tendência americana da época. Foi o fim da era "Tubarão" e o início da era "Bicudo".
Além da estética, o Chevette 78 trouxe melhorias no sistema de ventilação e nos bancos, que ficaram mais anatômicos. A GM sabia que a concorrência estava apertando com o Passat e o recém-chegado Fiat 147, por isso investiu em refinar a experiência a bordo. O motor 1.4 continuava sendo o cavalo de batalha, mas já com ajustes para melhorar o consumo, uma preocupação crescente após a crise do petróleo de 1973. O modelo de 78 é hoje um dos mais procurados por colecionadores que apreciam a transição entre o visual clássico e o moderno.
1979: A Chegada das Quatro Portas
Em 1979, a Chevrolet tentou quebrar um tabu brasileiro: o preconceito contra carros de quatro portas. O Chevette 79 foi lançado nesta configuração para atender famílias e taxistas que precisavam de mais acessibilidade. Embora o mercado brasileiro da época ainda preferisse as duas portas, o Chevette 4 portas de 79 é hoje uma raridade valorizada.
Este ano também marcou a introdução de novos detalhes de acabamento, como o uso de materiais mais resistentes nos painéis de porta e melhorias no sistema elétrico. O carro era sólido como uma rocha. A simplicidade mecânica era o seu maior argumento de venda. Qualquer mecânico de esquina conseguia regular o carburador simples do Chevette, e as peças eram encontradas em abundância. Foi em 79 que o Chevette se preparou para o seu maior desafio: a mudança de década.
1980: O Chevette a Álcool e o Motor 1.6
A década de 80 começou com uma revolução energética no Brasil. O Chevette 1980 foi um dos pioneiros no uso do motor a álcool (etanol). Com a crise do petróleo, o governo incentivava o Proálcool, e a GM respondeu com um motor 1.4 retrabalhado para o novo combustível, entregando partidas mais difíceis no frio (antes da invenção do tanquinho de gasolina), mas com um torque muito interessante.
Visualmente, o 1980 mantinha a frente "bicuda", mas trazia lanternas traseiras maiores e mais visíveis. Foi neste período que o motor 1.6 começou a ganhar espaço como opcional, oferecendo aquele fôlego extra que o carro tanto precisava para viagens em rodovias. O Chevette 80 consolidou a imagem de "carro pau para toda obra", sendo usado tanto por jovens quanto por frotas governamentais. Era um carro que não tinha medo de trabalho pesado.
1984: A Modernidade do Painel e do Motor 1.6/S
Em 1984, o Chevette já tinha passado por seu maior facelift (em 1983), ganhando faróis retangulares e lanternas traseiras envolventes. Mas o modelo de 84 é especial porque trouxe o refinamento do motor 1.6/S. Este "S" significava "Super", indicando um motor com pistões mais leves, novas bielas e um carburador de corpo duplo que finalmente dava ao Chevette a performance que seu chassi merecia.
O interior em 1984 era muito mais moderno. O painel tinha linhas retas, mais plásticos (seguindo a moda da época) e uma ergonomia superior. O volante de dois raios era mais agradável ao toque e o câmbio de 5 marchas (opcional) transformava o carro em um excelente estradeiro, reduzindo o giro do motor e economizando combustível. O Chevette 84 era o equilíbrio perfeito entre a robustez dos anos 70 e a tecnologia dos anos 80.
1987: O Luxo da Versão SE
O ano de 1987 foi o auge do luxo para o pequeno notável. Com o lançamento do Chevette SE (Special Edition), a Chevrolet colocou o carro em um patamar de sofisticação inesperado. O painel de instrumentos era completo, com voltímetro e manômetro de óleo, além de um relógio digital que era o ápice da tecnologia na época. Os tecidos dos bancos eram aveludados e o acabamento primoroso.
Por fora, o 1987 trazia para-choques envolventes em plástico cinza, abandonando as lâminas de metal cromado. Essa mudança deu ao carro um ar muito mais atual, aproximando-o visualmente do Monza. O motor 1.6/S já estava totalmente maduro, oferecendo uma confiabilidade inquestionável. Era o carro preferido de quem queria um sedã confiável, mas não tinha orçamento para um Monza ou um Santana. Em 87, o Chevette mostrava que, mesmo com um projeto antigo, ainda podia competir de igual para igual em conforto.
1991: O Chevette DL e o Fim de uma Era
Chegando a 1991, o Chevette começou a sentir o peso da idade, mas ainda resistia bravamente. A versão DL (Deluxe) era a principal oferta. O carro já não era mais o topo de linha da GM, mas sim a porta de entrada para a marca. O modelo de 91 focava na relação custo-benefício. Ele ainda era o único carro de tração traseira em sua categoria, o que atraía puristas e pessoas que moravam em regiões de difícil acesso.
Em 91, o acabamento interno foi simplificado para reduzir custos, mas a mecânica continuava inquebrável. Curiosamente, o Chevette 91 conviveu com o seu sucessor, o Kadett, mas mantinha uma legião de fãs fiéis que não abriam mão da simplicidade do sedã. Foi um ano de transição, onde o Chevette se preparava para dar lugar à nova geração de carros mundiais da GM.
1993: O Canto do Cisne e o Chevette L
O ano de 1993 foi o último suspiro deste gigante. O modelo disponível era o Chevette L, uma versão simplificada para abrir caminho para o futuro Corsa. Mesmo em seu último ano, o Chevette 93 ainda era um carro honesto. Ele trazia o motor 1.6/S e a transmissão de 5 marchas, oferecendo uma mecânica que qualquer mecânico no Brasil conhecia de olhos fechados.
A produção encerrou-se em 1993 para dar lugar a uma nova era, mas o Chevette saiu de linha com a cabeça erguida, tendo sido o carro mais vendido do Brasil em 1983 e mantido sua relevância por 20 anos. O modelo 93 é hoje um item de despedida, um lembrete de que a engenharia simples, quando bem executada, pode criar lendas que duram décadas na memória de um povo.
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