A Era dos "Fiatões" no Brasil: A História dos Valentes Fiat 70, 80 e a Linha 190
Se você viveu a era de ouro do transporte rodoviário no Brasil entre o final dos anos 1970 e a década de 1980, certamente se lembra do ronco inconfundível e do porte imponente dos caminhões Fiat. Nascidos a partir da herança da lendária FNM (Fábrica Nacional de Motores) e da Alfa Romeo, os caminhões da Fiat Diesel trouxeram para as rodovias brasileiras o conceito europeu de design e mecânica.
Hoje, vamos voltar no tempo para relembrar a trajetória de duas famílias distintas, mas igualmente importantes: os médios Fiat 70, 80 e 80S, e os gigantes das estradas Fiat 190, 190E e 190H.
O Início: A Transição FNM para Fiat
A história começa em 1977, quando a Fiat assumiu o controle total da FNM (após ter comprado a Alfa Romeo alguns anos antes). A marca italiana não queria apenas manter a linha de montagem em Xerém (RJ); ela queria revolucionar o mercado brasileiro introduzindo sua própria tecnologia europeia. Foi assim que os clássicos "Fenemês" começaram a dar espaço para a modernidade dos caminhões Fiat.
A Linha Média: Fiat 70, 80 e 80S
Para o transporte urbano e de médias distâncias, a Fiat lançou modelos mais compactos para brigar em um segmento que já era muito disputado.
Fiat 70: Lançado no final dos anos 70, era um caminhão leve/médio voltado para o serviço urbano e distribuição. Tinha uma cabine avançada (cara chata) muito moderna para a época, o que facilitava manobras em ruas estreitas.
Fiat 80 e 80S: Eram a evolução natural em capacidade de carga. O 80S, em particular, trouxe melhorias mecânicas e suspensão reforçada para aguentar o asfalto (e a falta dele) no Brasil.
O Início e o Elo de Transição: O Fiat 180
A história ganha força em 1977, quando a Fiat assumiu o controle total da FNM (após ter comprado a Alfa Romeo anos antes). Antes de introduzir uma linha 100% nova, a Fiat precisava manter o mercado abastecido e aproveitar a robustez já consagrada dos "Fenemês". Foi assim que nasceu o Fiat 180.
Fiat 180: Ele era, na essência, o clássico FNM 180 rebatizado. Manteve a famosa cabine "cara chata" de linhas mais retas e o coração valente que misturava a engenharia da Alfa Romeo com as primeiras atualizações da Fiat. Era um caminhão rústico, de mecânica conhecida pelos estradeiros, mas que já ostentava a logo da marca italiana na grade frontal. O Fiat 180 cumpriu o papel vital de segurar as vendas e acostumar o cliente com o novo nome enquanto a verdadeira revolução tecnológica era preparada nos bastidores.
Os Gigantes das Rodovias: Fiat 190, 190E e 190H
Se o Fiat 180 preparou o terreno, a família 190 foi feita para cravar a bandeira da inovação, cruzando o país puxando carretas pesadas. Eles foram os sucessores definitivos dos antigos FNM.
Fiat 190 (O Pioneiro): Foi um dos primeiros cavalos mecânicos com cabine avançada moderna de longa distância, trazendo um design muito mais arredondado e aerodinâmico que o do 180. Equipado com um motorzão Fiat de 6 cilindros em linha e 13.8 litros, entregava força bruta na casa dos 256 cv.
Fiat 190E (Econômico/Estradeiro): Uma versão com relações de marcha e diferencial otimizadas para frotistas que buscavam melhor consumo de combustível nas longas retas de asfalto.
Fiat 190H (Heavy): A letra "H" indicava a vocação superpesada. Vinha com eixos mais robustos, cubos redutores e suspensão preparada para o pior, sendo muito usado em composições pesadas e até fora de estrada (como o transporte de madeira e cana-de-açúcar).
Tecnologia e Concorrência nos Pesados
A briga aqui era de cachorro grande: Scania L111 e T112, Volvo N10 e os Mercedes-Benz LS-1924. O Fiat 190 se destacava pela potência em baixas rotações e pela excelente caixa de câmbio (Fuller ou ZF, dependendo da versão), muito precisas. No entanto, enquanto Scania e Volvo apostavam fortemente no turbocompressor no início dos anos 80, a Fiat demorou um pouco mais para popularizar o turbo na sua linha principal, o que dava certa vantagem aos concorrentes nas subidas de serra.
Conforto: Uma Casa Sobre Rodas?
A evolução do conforto do Fiat 180 para a linha 190 foi brutal. Para os padrões dos anos 70 e 80, a cabine dos pesados Fiat 190 era um verdadeiro latifúndio. O fato de ser "cara chata" oferecia um espaço interno muito superior em largura e altura quando comparado às cabines apertadas dos Mercedes da época.
As versões leito possuíam camas generosas (a cama dupla era um sonho de consumo), e o painel envolvente colocava todos os comandos à mão do motorista. O isolamento acústico ainda não era perfeito — o barulho característico do "motorzão" entrava na cabine —, mas a suspensão da cabine oferecia um nível de conforto que reduzia consideravelmente o cansaço nas viagens de sul a norte do Brasil.
Vendas e a Aceitação do Público
Apesar de serem caminhões modernos, fortes e espaçosos, a Fiat Diesel enfrentou dois grandes obstáculos no Brasil:
O Preconceito com a "Cara Chata": O motorista brasileiro daquela época amava os caminhões "bicudos" (com capô). Havia uma lenda urbana muito forte de que cabines avançadas eram perigosas em caso de acidente frontal, pois "o para-choque era o joelho do motorista".
O Medo da Manutenção: A mecânica Fiat da linha 190 era muito mais refinada e complexa que a dos tradicionais Mercedes. Quando o caminhão quebrava no interior do país, os mecânicos de beira de estrada tinham dificuldade. Além disso, as peças de reposição eram mais caras e difíceis de encontrar fora dos grandes centros urbanos.
Por conta disso, as vendas da linha Fiat nunca alcançaram o volume esmagador da Mercedes-Benz ou o status de luxo intocável da Scania. A Fiat Diesel acabou encerrando sua produção no Brasil em meados de 1985, devido a uma crise no setor e à reestruturação global da marca. Anos depois, a semente plantada por esses brutos ressurgiria com o retorno do grupo ao país através da Iveco.

















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